sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Plantas também podem avaliar a qualidade do ar

por:Paula Manoel Crnkovic e Deuzita Oliveira
paulam@sc.usp.br

Nas grandes cidades a qualidade de vida da população vem se agravando continuamente devido a uma série de fatores, dentre eles a poluição atmosférica causada pelas indústrias e pelo tráfego veicular. Nos centros urbanos a poluição atmosférica já é vista como um caso de saúde pública e, entre os inúmeros problemas, os poluentes podem também ser potencialmente mutagênicos, provocando um aumento da taxa de ocorrência de mutações e outros efeitos genotóxicos nos seres vivos.


A variedade de substâncias lançadas na atmosfera é muito grande e os veículos automotores são os principais emissores de poluentes nos centros urbanos, mais que qualquer outra atividade humana. A avaliação das concentrações desses poluentes na atmosfera é universalmente consagrada como indicadora da qualidade do ar, mas é importante salientar que as condições meteorológicas determinam também a maior ou menor diluição dos poluentes, como, por exemplo, nos meses de inverno, quando as condições do ar pioram em função da baixa dispersão dos poluentes.


Os poluentes podem ser classificados basicamente em duas categorias: primários (aqueles emitidos diretamente pelas fontes de emissão) e os secundários (aqueles formados por meio de reação química entre os poluentes primários e os constituintes naturais).


Um ingrediente vital na formação de poluentes secundários é a luz do sol, permitindo que se realizem reações fotoquímicas, que servem para aumentar a concentração de radicais livres que participam de processos químicos na atmosfera e formação do “smog” (uma mistura de fumaça com neblina – do inglês smoke e fog).


Em congressos relacionados com a poluição, a grande parte dos trabalhos apresentados refere-se, em geral, à poluição de recursos hídricos, mostrando inclusive que estudos nessa área estão mais adiantados em relação aos relaciona-dos com impacto da poluição atmosférica. Principalmente em países de clima tropical, este é ainda um campo pouco explorado.


Dentre as linhas de pesquisa que abordam a poluição ambiental, uma delas está em se utilizar o biomonitoramento. Esta técnica utiliza-se de um ser vivo (animais ou plantas) para avaliar as mudanças de um determinado ambiente, justamente por apre-sentar mudanças em suas características genéticas e metabólicas.


O Núcleo de Engenharia Térmica e Fluidos a EESC-USP (NETeF) está desenvolvendo estudos utilizando o biomonitoramento para avaliar a ação de gases emitidos diretamente de motores a diesel. O bioensaio utilizado é feito com uma planta conhecida como clone KU-20 da Tradescantia, desenvolvida em Kyoto no Japão.


Por se tratar de um trabalho que envolve conhecimentos sobre temas relacionados desde a engenharia de motores até a biologia, este grupo conta com pesquisadores de diversas áreas como engenheiros mecânicos, biólogos e químicos.
Os experimentos simulam ambientes em pequenas câmaras cuja atmosfera varia entre níveis baixos e altos de poluentes provenientes da combustão de motor a diesel e, uma vez estabelecidas as condições desejadas, as plantas (biomonitores) são inseridas nestas câmaras. Após essa exposição, é feita uma avaliação da mutagenicidade do bioindicador.


RESULTADOS - Até o presente momento os testes têm revelado que em condições de atmosfera levemente poluída, houve alteração mutagênica em torno de 18%, mas para uma atmosfera característica de um centro urbano muito poluído, as mutações chegam a até cerca de 50%. Quando se trata de mutagenicidade, a atribuição pode ser principalmente aos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) e óxidos de enxofre.


Outros trabalhos mostraram resultados semelhantes, como por exemplo uma pesquisa feita pelo Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP. Este trabalho demonstrou que a exposição de inflorescências do cone KU-20 em um local muito poluído na cidade de São Paulo, próximo às Avenidas Dr. Arnaldo e Teodoro Sampaio, apresentaram cerca de 40% de mutação.


Os trabalhos mostraram que o biomonitoramento com o clone KU-20 da Tradescantia é eficiente dentro de determinados critérios de avaliação e é capaz de reconhecer diferentes níveis de concentração de poluentes. Portanto, é interessante o uso desse bioensaio para se avaliarem alguns aspectos da qualidade do ar sem o uso de equipamentos de alto custo.


Diante desta descrição, observamos a importância de darmos atenção especial à poluição atmosférica, pois independentemente de raça, posição social ou financeira, todos estamos democraticamente expostos a estes riscos ambientais.


Fonte:CiênciaWeb

Dispoível no site:

http://143.107.180.237/iea/index.php/news_site/textos/artigos/plantas_tambem_podem_avaliar_a_qualidade_do_ar